14/10/2011

Carta resposta: uso do dinheiro


A seguir carta resposta ao Sr. Anselmo sobre sua correspondência:
 
   O texto a seguir é uma posição dentro da perspectiva da IECLB, igreja luterana. Não é a posição oficial, temos discutido e conversado esta temática em diversas instâncias. Mas, dentro do meu conhecimento não existe uma postura oficial da IECLB diante do tema.
   Você tem uma postura crítica diante de uma realidade que afeta à Igreja faz muito tempo. A idéia de vender os “bens religiosos” não é novidade, em diversas épocas as pessoas queriam encontrar gente que acreditasse na possibilidade de vender a salvação ou o segredo de chegar à vida eterna.
   Nas suas colocações, você ilustra muito bem o que nos círculos teológicos é chamada de Teologia da Prosperidade. Nela encontramos um Deus que negocia com as pessoas. Na realidade, a lógica do mercado entrou na igreja-instituição, por isso, como você bem colocou, a igreja vende o evangelho que é negociado com o “toma lá, dá cá”. Abrir uma igreja-instituição para muitos é abrir uma franquia de um negócio muito bom, pois tem isenções e imunidades tributárias que nenhuma outra instituição tem no Brasil. Dentro da lógica da Teologia da Prosperidade, como você muito bem coloca, as bênçãos de Deus são medidas segundo o sucesso econômico de uma pessoa. Por isso, diante de sua pergunta pela ajuda a pessoas necessitadas, somente posso indicar que a falta de sucesso financeiro indica falta de fé, e é contra o que pregam essas igrejas. Por que ajudar alguém que Deus “não quer”? Se não recebe os benefícios é porque Deus não o quer abençoar. O que resta fazer nesta visão teológica é orar para que Deus possa ajudar o fiel a ter mais fé e melhorar na vida. Não existe nenhuma crítica à realidade excludente, que impossibilita a muitos a possibilidade de melhorar de vida por estudo e/ou mérito no trabalho. O dinheiro arrecadado vai para quem partilha do conhecimento ao acesso das bênçãos. O dinheiro não tem porque ser partilhado entre os necessitados, o pastor é o receptor do dinheiro, pois ele já foi abençoado por Deus. Eles, como você indica, precisam procurar seus próprios interesses e assim cada um dos fieis. Nesta teologia, não existe espaço para preocupar-se e ocupar-se com o próximo. Cada indivíduo faz a negociação diretamente com Deus e cada um se vira. É a lógica do mercado aplicada diretamente  no mundo religioso, onde os fracos são enxotados e os forte recebem as bênçãos monetárias.
   Por outro lado, a Teologia da Cruz quer mostrar Deus que se aproxima do necessitado. Essa teologia é a que marca a igreja luterana e passo a indicar algumas pontes com o texto de você:
   Se bem é certo que precisamos de dinheiro para manter a igreja-instituição, na realidade o fim e missão da IECLB é propagar o Evangelho de Jesus Cristo; estimular a vivência evangélica pessoal, familiar e comunitária; promover a paz, a justiça e o amor na sociedade e participar do testemunho do Evangelho no País e no mundo. Nesse sentido, em diversas comunidades existem grupos de pessoas que se ocupam com a diaconia (serviço) dentro e fora das paredes do templo. Assim são ajudadas pessoas em necessidade como, por exemplo, cestas básicas ou cursos de capacitação. A IECLB, através de suas Comunidades e membros, se faz presente, por exemplo, nos lugares afetados pela tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, levando num primeiro momento água, comida, voluntários, mas também agora ajudando a que as pessoas possam ter uma moradia digna. A lógica na IECLB não é somente ajudar no momento, ao contrário é seguir o ditado “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”.
   No geral, a IECLB utiliza o conceito de “gratidão, fé e compromisso” quando fala em contribuição dos membros. O dinheiro é visto como uma forma, entre várias outras, de demonstrar a gratidão por tudo que Deus dá. Esse dinheiro é utilizado para sustentar a igreja-instituição local, regional e nacional e seus planos de propagar o Evangelho não somente com palavras, mas também com ações. Muitos membros ajudam não somente dentro das comunidades, mas também aos seus vizinhos e pessoas em necessidades. Aqui não temos uma venda, troca ou negociata, os membros agradecem tudo o que Deus já lhes tem dado. Em muitas comunidades, temos o culto anual de Ação de Graças ou Culto da Colheita. Onde se olha tudo o que Deus tem dado e por isso se agradece. É justo o contrário daquela lógica do peço para que me dêem. Pois tudo o que temos e somos é graças a Deus.
   Em muitos casos membros de comunidades luteranas se afastam quando tem problemas financeiros ou doenças. Lamentavelmente, a lógica do mercado tem influenciado eles e os ministros procuram ajudá-los a ver que a Igreja está ali também em momentos difíceis. Em geral, se um membro encontra-se em necessidade nos colocamos em oração e ação para ajudar, dentro das possibilidades da comunidade, para que a situação seja superada. Assim, parte das cestas básicas repartidas podem ser destinadas a membros, também são ajudados nos custos por doenças ou procuram-se vias de aliviar a situação. Em casos de desastres naturais como enchentes ou secas, a igreja destina verbas para ajudar na superação da calamidade. Cada comunidade olhando seu contexto encontra formas de ação diaconal que se for necessário inclua os seus próprios membros. Nem sempre é possível ajudar de forma plena, mas as ações visam fazê-lo do melhor jeito possível.
   Dentro do pensamento de poder ajudar, você lembra o texto de Gálatas 6.10 e ele é base da Obra Gustavo Adolfo que é uma organização da IECLB que ajuda comunidades nas suas necessidades seja de construção de templos e outras edificações ou ajudas em casos de desastres naturais.
   Você lembra o texto de Mateus 25.35-40 onde no juízo final as pessoas serão divididas, é interessante ver que as pessoas sempre perguntam “quando foi que o fizemos?” As pessoas agiram sem saber a quem o estavam fazendo. A lógica de Jesus vai além do dá-me que te dou. Pela graça de Deus nos acreditamos e pela mesma graça é que vivemos e obramos sem esperar nada em troca. Somos chamados a ser instrumentos de Deus ali onde estivermos, somos chamados à nossa vocação no dia-a-dia.
   O cristianismo é diferente do sucesso econômico. As bênçãos de Deus vão além da bênção financeira. Nosso contexto de pobreza faz com que pensemos que sucesso é dinheiro e não integridade ou dignidade. Conheço gente “pobre” muito bem “sucedida” e alegre pela sua família, pois criou homens e mulheres com princípios e valores cristãos que não se deixam corromper para crescer à custa dos outros. Se bem é certo que o amor de Deus inclui o material assim como oramos pelo “pão nosso de cada dia”, não é somente o material que é amor. Isso, o descreve Martim Lutero na sua explicação do Pai Nosso:
“O que significa pão de cada dia? Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.”
   Eu, humildemente, observando sua posição crítica à teologia da prosperidade lhe recomendaria procurar uma igreja onde essa teologia não seja aplicada.
Carta enviada por e-mail 16/04/2011

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