09/10/2013

Para que vamos à igreja?

“Ó Deus, eu falarei a respeito de ti aos meus irmãos e te louvarei na reunião do povo.” Hebreus 2.12
   O autor da carta aos Hebreus usa um versículo do Salmo 22 para falar da relação de Jesus com as pessoas. A categoria que ele indica é irmãos, pessoas relacionadas pelo mesmo pai. Mas, além dessa argumentação que traz a carta. É possível deduzir o que Jesus fazia em suas caminhadas pela Palestina: falar a respeito de Deus e louvar a Deus na reunião do povo. Podemos resumir dizendo que Jesus é um missionário, uma pessoa que anuncia a mensagem de Deus.

   Por um lado, Jesus não fica quieto. Não esconde o que ele quer fazer. Vemos como Jesus Cristo, uma e outra vez, fala às pessoas a Boa Nova do Reino de Deus. Ele procura alcançar a maior quantidade de pessoas. Muitas vezes, nós pensamos que Jesus andava somente com os 12 apóstolos. Como se fosse uma elite especializada que acompanhava Jesus. É certo que muitos textos narrados pelos evangelhos indicam Jesus acompanhado dos 12 ou até de alguns discípulos, mas, em muitas ocasiões o vemos rodeado por multidões.

   Por outro lado, Jesus participa da vida de culto. É levado ao templo por José e Maria. Depois procura a sinagoga para iniciar seu ministério, também lá cura pessoas. Vai celebrar a Páscoa em Jerusalém. Ele vai até o templo para reclamar do jeito como é utilizado.

   As palavras do salmista e as atitudes de Jesus Cristo são modelos para nós. O que fazemos? Muitas vezes, esperamos por especialistas que falem a repeito de Deus aos irmãos. Ficamos com vergonha de falar sobre Deus às pessoas. Preferimos falar de futebol ou novela em vez de convidar ao culto ou orar junto com conhecidos.

   No culto esperamos ser entretidos, procuramos por nossas necessidades, até “assistimos o culto”. Ultimamente, têm aparecido muitas charges nas redes sociais indicando e até de certa forma criticando a motivação das pessoas para irem ao culto. Cada qual vai com um interesse particular, com necessidades e vontades. Muitas vezes, esquecendo-se do porque temos culto.

   Neste mundo de especialistas e de consumistas é preciso lembrar e fazer nossa a oração: “Ó Deus, eu falarei a respeito de ti aos meus irmãos e te louvarei na reunião do povo”.
Meditação para o portal Luteranos 08/10/13

19/07/2013

O Salmo 23 e os Colaboradores do Hospital da Cidade

   Muitas vezes tenho utilizado este Salmo dentro deste hospital. Lembrando às pessoas que não estamos sozinhos. O ambiente do hospital, por ser desconhecido para os pacientes, sugere ser um lugar muito rude. Mas, na verdade é um lugar de transição, lugar de ir e vir. Lugar para intentar restabelecer a saúde do corpo e da alma. Lugar para defrontar-se com as limitações da vida humana. Aqui podemos encontrar os pastos verdes e às águas tranquilas ou o vale escuro.
   Ao conversar com os doentes ou os acompanhantes tenho escutado como são tratados pelo pessoal que labora neste hospital. Às vezes, não conseguem entender o distanciamento dos médicos. Perguntam-me por que eles não aparecem mais seguido, esquecendo-se que não é a única pessoa que devem de acompanhar. Mas, ao mesmo tempo, colocando sua confiança e esperança em que os médicos saberão como agir. Por outro lado, sabem que se chamam à campainha com certeza aparecerão os técnicos em enfermagem ou as enfermeiras. Tem a certeza de ali poderem ter alguém bem perto para transmitir suas dores e preocupações. E não por último, temos o pessoal que deixa tudo arrumado, que permite o ambiente estar limpo, as comidas quentinhas no momento certo, e o pessoal que está nos diversos escritórios fazendo possível o hospital funcionar.
   Nós como igreja luterana temos uma relação muito estreita com esta casa de saúde. Neste dia é impossível não lembrar à Elfriede Huescher, que trabalhou aqui, tantos anos de atuação neste hospital. Ela, melhor conhecida como Schwester Quantos sentiram nela que ser cristão não é ser somente dentro das igrejas, mas também no serviço ao próximo. Em verdade Schwester é irmã em alemão, termo usado para designar às diaconisas na IECLB, mulheres dedicadas ao serviço. Naquela mulher se misturou a enfermagem com a dedicação cristã. Uma vida que não podemos esquecer e que muitas pessoas hoje deveriam de ter como modelo.

   Atualmente são 1084 colabores e perto de 350 médicos. Definitivamente as pessoas que aqui procuram melhorar sua saúde não estão sozinhas. Vir ao hospital e ser atendidos pelo pessoal muito bem qualificado, não tem preço. E até arrisco, para muitas pessoas é a chance de sentir que Deus tem bondade e amor para com elas. Muito obrigado a todas aquelas pessoas que laboram neste hospital, que Deus as abençoe sempre na sua tarefa!
Alocução feita pelos 99 anos do Hospital da Cidade
Passo Fundo/RS, 19 de julho de 2013

13/02/2013

Meditando Quarta-feira de Cinzas


Texto Mateus 6.1-6, 16-21
A primeira aproximação à perícope deixou-me pensativo. As indicações de Jesus quase nunca são seguidas em nossas comunidades. Nossos cultos são públicos e geralmente tem muita gente; a diaconia que é feita ganha fotos publicadas; neste mundo de fartura, o jejum é feito por pessoas sem opção, é fome de miséria. Até como comunidades de fé, não conseguimos esperar uma recompensa futura, a igreja tem que estar lotada hoje. Então, como entender este texto? Qual é o objetivo de Jesus ao trazer essas indicações aos discípulos?
Qual a recompensa pelos atos de fé? O texto está justificando a teologia da prosperidade? Se nós olharmos somente alguns versículos ou uma parte deles com certeza encontraremos uma boa justificativa para a teologia da prosperidade, tudo fala em recompensa. Mas, assim, estaríamos limitando o conceito mostrado por Jesus. Ele mostra outra realidade onde as pessoas devem agir não porque podem receber uma recompensa (“eles já receberam a recompensa”). A perícope uma e outra vez assegura que Deus vê e abençoa nosso atuar se for genuíno. Nosso agir deveria de ser tal que atuássemos do mesmo jeito coerente com o Reino ainda que ninguém estivesse olhando.
Foto da Paróquia ABCD
Por que é tão importante ser visto? É que não é simplesmente ser notado o que conta, mas poder ter validade e autoestima a partir das outras pessoas. Nosso ego precisa ser massageado, os cumprimentos tem que ser em público. Nisto, Jesus critica, Deus nos vê e nos dá validade. Em secreto, a aprovação de Deus é a única disponível. Deveríamos perguntar-nos para quê são as boas obras? Para mostrar-se? Qual a motivação por trás das ações realizadas?
Com os textos indicados e com a Quarta-feira de Cinzas temos a necessidade da exortação sobre observâncias cristãs deste tempo tão especial e ao mesmo tempo o alerta que o próprio Jesus aponta de que piedade feita para ganhar a atenção das pessoas não é realmente piedade. Dar esmola não é caridade se a motivação é ganhar influência. A oração está perdida se a motivação é chamar a atenção para a eloquência. O jejum deixa de ser humanitário e sinal de nossa dependência a Deus se o que se procura é que outros vejam nossa profunda devoção.
Jesus não indica às pessoas que devem dar esmola, orar ou jejuar. Ele sobre-entende que pessoas religiosas estarão motivadas a esses atos por questão de princípio. Isto faz com que a temática da Quarta-feira de Cinzas e da Quaresma como um todo seja, mas que uma indicação, um alerta sobre os interesses de realizar certos atos (incluídos os três do texto em questão).
O Sermão do Monte foca sobre a justiça que é uma característica do Reino. Nele, justiça é visto mais em termos éticos. Mas, não é uma simples lista de coisas a fazer. Deve existir um equilíbrio entre o fazer e o mostrar. Qual é a motivação última para realizar tal ato? Isto inclui também o que significa mostrar publicamente que temos na testa uma cruz de cinza por nossa participação na celebração em nossa comunidade. Essa cruz não é um diploma por ser bom cristão. As cinzas lembram nossa natureza mortal (do pó viemos e ao pó voltaremos) e também a nossa absoluta e total dependência da graça divina. Não querem ser marcas visíveis de nossa piedade. Mas, ao mesmo tempo a simples rejeição desse ato de piedade pode também levar-nos à vanglória criticada por Jesus.
Este texto convida à igreja de hoje a repensar sua prática religiosa. Temos o alerta da religião supermercado, da organização eclesiástica que funciona como buffet livre onde as pessoas vão e consumem o que querem segundo seu gosto e trocam quando enjoam pela falta de variedade. Tudo isso regado com a mentalidade da sociedade atual do consumo e da troca de bens. Quantas de nossas atividades não são feitas porque queremos ter retorno principalmente econômico, mas também pode ser querer ter uma igreja lotada ou sair bonito na foto da doação às pessoas marginalizadas. Deixamos de lado aquilo que Jesus pediu e optamos de forma aberta e até descarada pela lógica do mercado porque é o que mais rende.
Logicamente que a primeira imagem a ser utilizada neste culto seja as cinzas. A lembrança que somos seres finitos e totalmente dependentes de Deus. Como poderíamos ajudar à comunidade entender isso? Quais são os sinais que mostram que somos limitados? Problemas de saúde, falta de emprego, depressão, etc.
Por outro lado, podemos perguntar-nos: Quais são os toques de trombeta de hoje? Para que são os testemunhos realizados nos cultos, para se gabar? Para algumas pessoas é importante que todos vejam como ela “se entregou a Jesus” e não podemos esquecer aqueles que respondem à pergunta “quem oferta mais?” Mas, não devemos olhar somente para outras confissões, na própria IECLB também se toca trombeta, com placas de doado por tal família, e a eterna lembrança de alguns membros “eu doei os tijolos”; ao mesmo tempo também fica o alerta de pastores e pastoras que querem “deixar sua marca” na Paróquia onde passam, tem que construir alguma coisa para que as próximas gerações vejam como eles trabalharam tão bem.
Quais atos devem ser feitos para mostrar a vontade de Deus hoje, em nossa situação? Jesus utilizou dar esmola, orar e jejuar (práticas comuns de sua época). O que os cristãos e as cristãs em seu contexto deveriam de fazer para serem sinais do Reino? Qual seria a ênfase diaconal em seu contexto? Qual a prática a ser lembrada e refletida de acordo com o texto? O grupo de louvor está ali para louvar a Deus ou fazer um show musical? A OASE reúne-se para cumprir seus objetivos ou simplesmente é um grupo para partilhar fofocas?
Publicado no Proclamar Libertação 37

09/01/2013

Deus nos conhece, vê e acolhe


Leitura João 1.43-51
Mensagem
Deus nos conhece. Muitas vezes pensamos que ninguém nos entende ou nos escuta. Assim, como aconteceu com Natanael, Jesus conhece a cada um de nós. Sabe o que se passa em nossas cabeças. Muitas vezes nem nós mesmos entendemos. As coisas parecem confusas, não entendemos, não queremos acreditar. Mas a realidade dura e cruel está ali, a doença não arreda o pé, os nossos familiares amados sofrem com dores ou com tratamentos complicados. Parece que não temos força para superar o que temos enfrente.

Deus nos vê ainda que nós não nos demos conta. Natanael fica surpreso porque Jesus indicou que ele estava debaixo de uma figueira. Com certeza para o ser humano Natanael isso indicava um milagre, uma coisa que normalmente não podia acontecer. Eu sempre que venho olho os pedidos que as pessoas deixam nas folhas debaixo das imagens. Elas acreditam que Deus pode olhar para elas. É por isso que nos juntamos e oramos ao Pai, é por isso que acreditamos que ainda que não tenhamos a presença física de Jesus ao nosso lado, sabemos que não estamos sozinhos.

Deus nos acolhe, assim como somos. Diante do jeito como Natanael reconhece Jesus como o Filho de Deus, Jesus indica que ele verá coisas maiores do que o simples vê-lo debaixo de uma árvore. Ver o céu aberto, ter a certeza de que Deus olha e atua em nosso meio. Ver os anjos de Deus subindo e descendo, levando os pedidos e trazendo as respostas. Temos um Deus que nos ama tanto que podemos ter a certeza de que está conosco ainda que tenhamos uma doença incurável ou que o tratamento seja tão agressivo que perdemos os cabelos. Deus está mais perto de nós justamente nos momentos mais difíceis de nossa vida. Que nunca nos esqueçamos disso.

Da série meditando no hospital
Cerimonia 09/01/13 no  Hospital da Cidade