Texto Mateus 6.1-6, 16-21
A primeira aproximação à perícope deixou-me pensativo. As indicações de Jesus quase nunca são seguidas em nossas comunidades. Nossos cultos são públicos e geralmente tem muita gente; a diaconia que é feita ganha fotos publicadas; neste mundo de fartura, o jejum é feito por pessoas sem opção, é fome de miséria. Até como comunidades de fé, não conseguimos esperar uma recompensa futura, a igreja tem que estar lotada hoje. Então, como entender este texto? Qual é o objetivo de Jesus ao trazer essas indicações aos discípulos?
Qual a recompensa pelos atos de fé? O texto está justificando a teologia da prosperidade? Se nós olharmos somente alguns versículos ou uma parte deles com certeza encontraremos uma boa justificativa para a teologia da prosperidade, tudo fala em recompensa. Mas, assim, estaríamos limitando o conceito mostrado por Jesus. Ele mostra outra realidade onde as pessoas devem agir não porque podem receber uma recompensa (“eles já receberam a recompensa”). A perícope uma e outra vez assegura que Deus vê e abençoa nosso atuar se for genuíno. Nosso agir deveria de ser tal que atuássemos do mesmo jeito coerente com o Reino ainda que ninguém estivesse olhando.
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| Foto da Paróquia ABCD |
Com os textos indicados e com a Quarta-feira de Cinzas temos a necessidade da exortação sobre observâncias cristãs deste tempo tão especial e ao mesmo tempo o alerta que o próprio Jesus aponta de que piedade feita para ganhar a atenção das pessoas não é realmente piedade. Dar esmola não é caridade se a motivação é ganhar influência. A oração está perdida se a motivação é chamar a atenção para a eloquência. O jejum deixa de ser humanitário e sinal de nossa dependência a Deus se o que se procura é que outros vejam nossa profunda devoção.
Jesus não indica às pessoas que devem dar esmola, orar ou jejuar. Ele sobre-entende que pessoas religiosas estarão motivadas a esses atos por questão de princípio. Isto faz com que a temática da Quarta-feira de Cinzas e da Quaresma como um todo seja, mas que uma indicação, um alerta sobre os interesses de realizar certos atos (incluídos os três do texto em questão).
O Sermão do Monte foca sobre a justiça que é uma característica do Reino. Nele, justiça é visto mais em termos éticos. Mas, não é uma simples lista de coisas a fazer. Deve existir um equilíbrio entre o fazer e o mostrar. Qual é a motivação última para realizar tal ato? Isto inclui também o que significa mostrar publicamente que temos na testa uma cruz de cinza por nossa participação na celebração em nossa comunidade. Essa cruz não é um diploma por ser bom cristão. As cinzas lembram nossa natureza mortal (do pó viemos e ao pó voltaremos) e também a nossa absoluta e total dependência da graça divina. Não querem ser marcas visíveis de nossa piedade. Mas, ao mesmo tempo a simples rejeição desse ato de piedade pode também levar-nos à vanglória criticada por Jesus.
Este texto convida à igreja de hoje a repensar sua prática religiosa. Temos o alerta da religião supermercado, da organização eclesiástica que funciona como buffet livre onde as pessoas vão e consumem o que querem segundo seu gosto e trocam quando enjoam pela falta de variedade. Tudo isso regado com a mentalidade da sociedade atual do consumo e da troca de bens. Quantas de nossas atividades não são feitas porque queremos ter retorno principalmente econômico, mas também pode ser querer ter uma igreja lotada ou sair bonito na foto da doação às pessoas marginalizadas. Deixamos de lado aquilo que Jesus pediu e optamos de forma aberta e até descarada pela lógica do mercado porque é o que mais rende.
Logicamente que a primeira imagem a ser utilizada neste culto seja as cinzas. A lembrança que somos seres finitos e totalmente dependentes de Deus. Como poderíamos ajudar à comunidade entender isso? Quais são os sinais que mostram que somos limitados? Problemas de saúde, falta de emprego, depressão, etc.
Por outro lado, podemos perguntar-nos: Quais são os toques de trombeta de hoje? Para que são os testemunhos realizados nos cultos, para se gabar? Para algumas pessoas é importante que todos vejam como ela “se entregou a Jesus” e não podemos esquecer aqueles que respondem à pergunta “quem oferta mais?” Mas, não devemos olhar somente para outras confissões, na própria IECLB também se toca trombeta, com placas de doado por tal família, e a eterna lembrança de alguns membros “eu doei os tijolos”; ao mesmo tempo também fica o alerta de pastores e pastoras que querem “deixar sua marca” na Paróquia onde passam, tem que construir alguma coisa para que as próximas gerações vejam como eles trabalharam tão bem.
Quais atos devem ser feitos para mostrar a vontade de Deus hoje, em nossa situação? Jesus utilizou dar esmola, orar e jejuar (práticas comuns de sua época). O que os cristãos e as cristãs em seu contexto deveriam de fazer para serem sinais do Reino? Qual seria a ênfase diaconal em seu contexto? Qual a prática a ser lembrada e refletida de acordo com o texto? O grupo de louvor está ali para louvar a Deus ou fazer um show musical? A OASE reúne-se para cumprir seus objetivos ou simplesmente é um grupo para partilhar fofocas?
Publicado no Proclamar Libertação 37
