A seguir carta resposta ao Sr. Anselmo sobre sua correspondência:
O texto a seguir é uma posição dentro da
perspectiva da IECLB, igreja luterana. Não é a posição oficial, temos discutido
e conversado esta temática em diversas instâncias. Mas, dentro do meu
conhecimento não existe uma postura oficial da IECLB diante do tema.
Você tem uma postura crítica diante de uma
realidade que afeta à Igreja faz muito tempo. A idéia de vender os “bens
religiosos” não é novidade, em diversas épocas as pessoas queriam encontrar
gente que acreditasse na possibilidade de vender a salvação ou o segredo de
chegar à vida eterna.
Nas suas colocações, você ilustra muito bem
o que nos círculos teológicos é chamada de Teologia da Prosperidade. Nela encontramos
um Deus que negocia com as pessoas. Na realidade, a lógica do mercado entrou na
igreja-instituição, por isso, como você bem colocou, a igreja vende o evangelho
que é negociado com o “toma lá, dá cá”. Abrir uma igreja-instituição para muitos
é abrir uma franquia de um negócio muito bom, pois tem isenções e imunidades
tributárias que nenhuma outra instituição tem no Brasil. Dentro da lógica da
Teologia da Prosperidade, como você muito bem coloca, as bênçãos de Deus são
medidas segundo o sucesso econômico de uma pessoa. Por isso, diante de sua
pergunta pela ajuda a pessoas necessitadas, somente posso indicar que a falta
de sucesso financeiro indica falta de fé, e é contra o que pregam essas
igrejas. Por que ajudar alguém que Deus “não quer”? Se não recebe os benefícios
é porque Deus não o quer abençoar. O que resta fazer nesta visão teológica é
orar para que Deus possa ajudar o fiel a ter mais fé e melhorar na vida. Não
existe nenhuma crítica à realidade excludente, que impossibilita a muitos a
possibilidade de melhorar de vida por estudo e/ou mérito no trabalho. O
dinheiro arrecadado vai para quem partilha do conhecimento ao acesso das
bênçãos. O dinheiro não tem porque ser partilhado entre os necessitados, o
pastor é o receptor do dinheiro, pois ele já foi abençoado por Deus. Eles, como
você indica, precisam procurar seus próprios interesses e assim cada um dos
fieis. Nesta teologia, não existe espaço para preocupar-se e ocupar-se com o
próximo. Cada indivíduo faz a negociação diretamente com Deus e cada um se
vira. É a lógica do mercado aplicada diretamente no mundo religioso, onde os fracos são
enxotados e os forte recebem as bênçãos monetárias.
Por outro lado, a Teologia da Cruz quer
mostrar Deus que se aproxima do necessitado. Essa teologia é a que marca a
igreja luterana e passo a indicar algumas pontes com o texto de você:
Se bem é certo que precisamos de dinheiro
para manter a igreja-instituição, na realidade o fim e missão da IECLB é
propagar o Evangelho de Jesus Cristo; estimular a vivência evangélica pessoal,
familiar e comunitária; promover a paz, a justiça e o amor na sociedade e
participar do testemunho do Evangelho no País e no mundo. Nesse sentido, em
diversas comunidades existem grupos de pessoas que se ocupam com a diaconia (serviço)
dentro e fora das paredes do templo. Assim são ajudadas pessoas em necessidade
como, por exemplo, cestas básicas ou cursos de capacitação. A IECLB, através de
suas Comunidades e membros, se faz presente, por exemplo, nos lugares afetados
pela tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, levando num primeiro momento
água, comida, voluntários, mas também agora ajudando a que as pessoas possam
ter uma moradia digna. A lógica na IECLB não é somente ajudar no momento, ao
contrário é seguir o ditado “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”.
No geral, a IECLB utiliza o conceito de
“gratidão, fé e compromisso” quando fala em contribuição dos membros. O
dinheiro é visto como uma forma, entre várias outras, de demonstrar a gratidão
por tudo que Deus dá. Esse dinheiro é utilizado para sustentar a
igreja-instituição local, regional e nacional e seus planos de propagar o
Evangelho não somente com palavras, mas também com ações. Muitos membros ajudam
não somente dentro das comunidades, mas também aos seus vizinhos e pessoas em
necessidades. Aqui não temos uma venda, troca ou negociata, os membros
agradecem tudo o que Deus já lhes tem dado. Em muitas comunidades, temos o
culto anual de Ação de Graças ou Culto da Colheita. Onde se olha tudo o que
Deus tem dado e por isso se agradece. É justo o contrário daquela lógica do
peço para que me dêem. Pois tudo o que temos e somos é graças a Deus.
Em muitos casos membros de comunidades
luteranas se afastam quando tem problemas financeiros ou doenças.
Lamentavelmente, a lógica do mercado tem influenciado eles e os ministros
procuram ajudá-los a ver que a Igreja está ali também em momentos difíceis. Em
geral, se um membro encontra-se em necessidade nos colocamos em oração e ação
para ajudar, dentro das possibilidades da comunidade, para que a situação seja
superada. Assim, parte das cestas básicas repartidas podem ser destinadas a
membros, também são ajudados nos custos por doenças ou procuram-se vias de
aliviar a situação. Em casos de desastres naturais como enchentes ou secas, a igreja
destina verbas para ajudar na superação da calamidade. Cada comunidade olhando
seu contexto encontra formas de ação diaconal que se for necessário inclua os
seus próprios membros. Nem sempre é possível ajudar de forma plena, mas as
ações visam fazê-lo do melhor jeito possível.
Dentro do pensamento de poder ajudar, você
lembra o texto de Gálatas 6.10 e ele é base da Obra Gustavo Adolfo que é uma
organização da IECLB que ajuda comunidades nas suas necessidades seja de
construção de templos e outras edificações ou ajudas em casos de desastres
naturais.
Você lembra o texto de Mateus 25.35-40 onde
no juízo final as pessoas serão divididas, é interessante ver que as pessoas
sempre perguntam “quando foi que o fizemos?” As pessoas agiram sem saber a quem
o estavam fazendo. A lógica de Jesus vai além do dá-me que te dou. Pela graça
de Deus nos acreditamos e pela mesma graça é que vivemos e obramos sem esperar
nada em troca. Somos chamados a ser instrumentos de Deus ali onde estivermos,
somos chamados à nossa vocação no dia-a-dia.
O cristianismo é diferente do sucesso
econômico. As bênçãos de Deus vão além da bênção financeira. Nosso contexto de
pobreza faz com que pensemos que sucesso é dinheiro e não integridade ou
dignidade. Conheço gente “pobre” muito bem “sucedida” e alegre pela sua família,
pois criou homens e mulheres com princípios e valores cristãos que não se
deixam corromper para crescer à custa dos outros. Se bem é certo que o amor de
Deus inclui o material assim como oramos pelo “pão nosso de cada dia”, não é
somente o material que é amor. Isso, o descreve Martim Lutero na sua explicação
do Pai Nosso:
“O que significa
pão de cada dia? Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como
por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro
e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões
íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos
leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.”
Eu, humildemente, observando sua posição
crítica à teologia da prosperidade lhe recomendaria procurar uma igreja onde
essa teologia não seja aplicada.
Carta enviada por e-mail 16/04/2011